Arte e trabalho
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Por: Xandra Stefanel- Revista Brasil Atual

Esses ingredientes compõem os objetivos em geral semelhantes dos grupos. Luciano Carvalho, da Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, avalia como positiva a resposta que vem do público. E cita como memorável o fato de terem reunido na sede da companhia, na Cidade Patriarca (zona leste), cerca de 600 pessoas para assistir à ultima apresentação de A Saga do Menino Diamante, uma Obra Periférica, que aborda a construção e destruição da metrópole e da favela.

“O que produzimos é expressão de classe. É um trabalho de luta contra-hegemônica. Estamos numa disputa, e parece que estamos avançando muito. Para essa apresentação rolou um boca a boca muito intenso na cidade, principalmente na periferia. Foi um êxito muito vigoroso, porque eu não conheço notícia parecida com esta: levar 600 pessoas na periferia para ver teatro”, afirma Luciano.

Além de se apresentarem nos espaços próprios, quase todos os grupos levam seu trabalho para as ruas, seja na periferia, seja em centros urbanos, assentamentos do MST, sindicatos ou outras organizações sociais. Com uma tenda itinerante, agora instalada na Radial Leste, a Engenho Teatral também foi “onde a população mora e o teatro não chega”. E é essa convivência que leva aos palcos, segundo um dos criadores do grupo, Luiz Carlos Moreira.

 

“O lugar econômico, físico, geográfico, cultural e social onde a gente se encontra também define o que é a obra colocada no palco. Nossa função é construir uma linguagem que se contraponha ao pensamento e a valores dominantes dessa sociedade, é botar o dedo nas contradições da sociedade capitalista. A gente tenta ir ao encontro da classe trabalhadora marginalizada dessa produção cultural”, declara Luiz Carlos.

 

A Cia. Antropofágica se apresenta em sua sede, o Espaço Pyndorama, e também nas ruas. O nome da peça é praticamente um texto: Entre a Coroa e o Bandido – Terror e Miséria no Novo Mundo Parte II: O Império. O trabalho reúne episódios da história do Brasil Império e propõe uma reflexão sobre seus desdobramentos nos dias de hoje. Ao final da peça, o grupo se posiciona por meio de um verso do poeta e dramaturgo russo Vladimir Maiakovski: “Dai-nos, camaradas, uma arte nova – nova – que arranque a república da escória”.

O diretor Thiago Reis Vasconcelos explica a intenção da companhia: “Nós nos colocamos como grupo que está disposto à militância, a organizar esse período da República que estamos vivendo. Entre nós, tem gente que é do MST, do Passe Livre e de outros movimentos sociais. O teatro, para nós, é um meio, não um fim; é um meio de debater essas questões sociais e de militância”.

Já a Karroça Antropofágica é uma intervenção cênico-musical baseada em pesquisa sobre os trabalhadores tropeiros no Brasil Império. Nela, os atores saem pelas ruas e avenidas de São Paulo, com uma carroça, apresentando temas diversos à população. Um deles, no início do ano, foi o aumento da passagem do ônibus na capital. No fim do trajeto, os atores convidam os espectadores a participar de um banquete-debate.

A rua também é o principal espaço de trabalho da Brava Companhia. Atualmente com a peça Este Lado para Cima – Isto Não É um Espetáculo, travam, com bom humor, um diálogo com os trabalhadores sobre a máquina capitalista, a exploração do trabalho e a supervalorização do dinheiro, que conduzem à opressão e ao autoritarismo. Em março passado, a Brava levou o espetáculo à Flaskô, fábrica de Sumaré (SP) que, em vias de decretar falência, em 2003, foi ocupada pelos funcionários.

Fabio Resende, integrante da companhia, afirma que o grupo não tem a intenção de mostrar a vida como ela é, mas sim “desnaturalizar” construções feitas pelo capitalismo e dialogar com os trabalhadores de forma divertida. “Quando a gente aponta as contradições, as pessoas querem conversar sobre aquilo. Mas, dizer que por intermédio do teatro nós vamos mudar a realidade, isso não. Somos um grupo de pessoas que pensa o mundo como possibilidade de transformá-lo, queremos fazer um teatro que tenha potencial revolucionário. Pode ser que a gente consiga criar uma faísca que estoure. Existem muitos grupos de teatro fazendo isso. Então, o movimento tem se espalhado.”